DEDICATÓRIA

 

Um Povo só é grande quando tem história.

A Póvoa tem uma bonita história:

a riqueza e a pureza do seu povo.

Este foi o blog que construí para divulgar a tenacidade,

a luta, a inteligência e a honestidade do meu pai.

Graças a Deus ainda está lucidamente activo e vivo!

A sua memória é fantástica.

Amo muito o meu pai e se poeta sou a ele o devo.

José Augusto Simões Faleceu com 94 anos,

nasceu em 20 de Maio de 1922 e faleceu a 17 de Agosto de 2016

Esta é a homenagem e o agradecimento

 que presto a tão grande homem.

Seu filho

Rogério Martins Simões

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

EU NASCI NUMA CASA POBRE


 

(Pampilhosa da Serra foto Padre Pedro)


 

EU NASCI NUMA CASA POBRE

José Augusto Simões

 

Eu nasci numa casa fundeira

Cresci numa casa da serra

As ruas eram a estrumeira

Do esterco se alimenta a terra

 

As casas eram velhinhas

Mas tinham boas lareiras

Minha mãe e as vizinhas

Levavam estrume p´ras leiras

 

Só se juntavam à noite

Ou quando estava a chover

Punham lenha na fogueira

Para todos bem receber

 

Éramos todos primos e amigos

Todos juntos a conviver

Punha-se mais lenha no lume

Foi ali que aprendi a ler

 

Todas elas nos contavam

Cada qual a sua história

Atentos todos escutavam

Tudo ficava na memória

 

Depois de tantas histórias

Coisas que havias nas terras…

Tínhamos as nossas glórias

Subíamos ao alto das serras

 

Quando chegámos ao cimo

Avistávamos o horizonte

Era a serra mais alta

No largo tinha uma fonte.

 

Saía a água da rocha

Muito pura e cristalina

Logo os dois nos baixámos

Para beber água tão fina.

 

Quando olhámos os astros

Vimos o sol a nascer

Era a coisa mais bonita

Que podia acontecer

 

Depois de o sol arraiar

Corremos todos os montes

Em todos os vales corria

Água em todas as fontes

 

Terras cobertas de matos

Tão bonitas, uma beleza

Todas ali se criaram

Com o sol da natureza

 

Depois descemos para a aldeia

Com saudade e alegria

Já sabíamos muitas coisas

Era verdade o que se dizia.

 

Já na escola fui aprender

A lição que já sabia

Recordo e não irei esquecer

A lição de astrologia.


 

 

Lisboa, 12 de Dezembro de 2006

sinto-me: Poema de 2006
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Sexta-feira, 28 de Março de 2008

José Augusto Simões

PAI.jpg

 (José Augusto Simões)

MEU PAI

 

José Augusto Simões, nasceu em 20 de Maio de 1922, no lugar da Póvoa - Pampilhosa da Serra.

Filho de Maria da Ascenção Ramos, (1882 - 1938) e de António Antunes Simões (1881 - 1934).

Descende das famílias Simões e Henriques da Pampilhosa da Serra; dos Antunes e Ramos da Póvoa e dos Almeidas de Moninho. Teve duas irmãs, Maria da Nazaré Simões, empregada nos Hospitais Civis de Lisboa - Hospital de Arroios e Laura da Conceição Simões.

Foi um aluno brilhante na escola da Pampilhosa da Serra onde ganhou diversos prémios escolares: o 1º prémio escolar de 60$00, na passagem da 2ª para a 3ª classe, tendo obtido a nota final de 18 valores e o 1º prémio escolar, também, os 60$00, na passagem da 3ª para a 4ª classe, tendo obtido como nota final 19 valores.

Ingressou na 1ª classe em 1930 que concluiu em 1931. Concluiu a 2º grupo em 1932; a 2ª classe em 1933; a 3ª classe em 1934 e terminou os seus estudos primários, a 4ª classe, em 1935 com a nota final “brilhante com distinção”.

Da 1ª à 3ªclasse foi ensinado pelo Professor Anselmo Ferreira e na 4ª classe pelo Professor Gil.

Apenas pôde concluir a 4ª Classe, porque as vicissitudes da vida o impediram de prosseguir os seus estudos.

O seu maior trauma da infância foi a morte prematura do seu pai e a doença e morte de sua mãe, que, aliado à falta de recursos, tão normal nessa época, o impediu de realizar o seu sonho: “concluir um curso superior”.

Ficou órfão de pai aos 12 anos e de mãe aos 15 anos de idade, tendo migrado para Lisboa onde trabalhou, desde muito cedo, como caixeiro de mercearia até à data em que foi incorporado no serviço militar.

Trabalhou, depois, como “caixeiro-viajante” tendo conhecido todo o país ao serviço da firma “Francisco Simões” que comercializava sacos, batatas e outros legumes.

Em 21 de Abril de 1948, fundou, com seu tio Jaime Rodrigues, natural do Pessegueiro, uma pequena empresa de sacos usados, a firma Jaime Rodrigues & Simões, Lda., que foi a base de sustentação de toda a família, bem como de muitos parentes, amigos e conhecidos.

A sua “sacaria”, na Calçada do Forte em Lisboa, foi sempre ponto de encontro e de reunião entre os conterrâneos e amigos.

Esteve na reorganização da Comissão de Melhoramentos da Póvoa onde foi 1º Secretário nos anos de 1949 a 1950.

Casou com Isabel Martins de Assunção, natural da Malhada, Colmeal, prima direita do actual Presidente do Tribunal Constitucional, Luís Manuel Nunes de Almeida.

Do seu casamento nasceram 5 filhos. As duas filhas faleceram precocemente e estão vivos os restantes filhos do sexo masculino.

Acolheu na sua pequena casa de Lisboa, na Rua do Mirante, parentes ou simplesmente conhecidos. Recordo-me de meus pais cederem a sua cama aos familiares e de terem dormido, em cima de sacos, no seu estabelecimento comercial.

É um homem com um “H” muito grande, dotado de uma memória prodigiosa colocando a honra e a honestidade no cimo do seu pedestal.

Foi brilhante na matemática e em outras ciências tais como a Geografia, as Ciências Naturais, a História e a Aritmética. A sua letra era muito bonita e por isso era o “miúdo” que escrevia e lia as cartas aos seus conterrâneos.

Mas a sua memória não é passiva.

José Augusto Simões sabe de cor as datas de nascimento e da morte de quase todos os seus familiares, amigos e conhecidos, bem como, as datas dos factos mais importantes da sua e da nossa vida  passada e actual. Sabe de cor os nomes de todos os ossos do corpo humano, rios e estradas de Portugal. Desculpem, meu pai é simplesmente brilhante.

Conseguiu passar para o papel, reconstituindo, a árvore genealógica de quase toda a sua ascendência: Simões, Ramos e Antunes (esta desde 1822).

Parte desta reconstituição familiar foi-lhe transmitida, oralmente, por sua mãe Maria Ramos (ti Mariquitas da Póvoa) e conservada na memória do meu pai até à data.

Foi sempre um grande comunicador. Lembro-me de o ouvir contar histórias de fantasiar e de encantar que tanto preencheu o imaginário da minha infância.

Escreveu poesia, pois li alguns dos seus poemas, que expressam bem as amarguras da vida, as coisas boas e simples e o seu amor pelo próximo.

Para que perdurem as lembranças da sua brilhante memória, que podem contribuir para escrever ou rescrever a vida difícil de um povo implantado na Beira Serra, vou trazer alguns artigos que escreveu e continuarei a incentivar para que escreva, pois neles se encontram alusões, menções a pessoas e factos, que fazem a história de uma aldeia a Póvoa da Pampilhosa da Serra e das suas gentes.

Homenagem do seu filho

Rogério Simões

2004 

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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005

Memórias de um poeta

(Foto de Romasi)

MEMÓRIAS do um filho de UM POETA

(Rogério Martins Simões)

Em Março de 2004, como muitos o sabem, embarquei nesta aventura dar a conhecer a minha poesia.

Ao longo dos últimos 16 meses fui resistido à tentação do fogo e isso devo a vós - a todos aqueles que me lêem, quase um milhão de acessos.

Só quem a escreve; só quem é o seu autor, tem o direito de a rasgar ou de a queimar.

Sou contra todo o outro tipo de fogueira, mas isso não são contas do meu presente rosário.

Comecei bem cedo a escrever poesia por culpa do meu querido pai e do ar contemplativo de minha mãe que não sabia, nem sabe, escrever - mas isso são contas de outro rosário - pois à mulher era quase negado o direito a estudar.

Dizia eu, ou estava para dizer, vivi numa humilde casa em Lisboa, paredes-meias com a feira-da-ladra, onde fui crescendo, escutando e vendo.

Comecei por aprender que a poesia cresce com a alma e escreve-se com amor e isto ensinou-me o meu querido pai: José Augusto Simões. Homem culto, simples, honesto, solidário, bom marido e bom pai.

Sobre o meu pai já escrevi o “insuficiente”, pois, todas as palavras ou poemas não chegam para lhe dedicar.

Nasci em Julho de 1949 e nos anos 50 eu era menino.

A casa de meus pais, nesse tempo, fervilhava de familiares e amigos que deixavam as suas aldeias, na Beira Baixa, em busca de uma vida melhor. Meu pai e minha mãe recebiam-nos cedendo, a sua própria cama. E foi assim até há poucos anos.

Dormia-se por tudo que era canto - por turnos - "pouca sorte partir; pouca sorte chegar"

Meu pai era um humilde comerciante de sacos usados, nada tinha e tudo dava. Sabia de tudo, tudo sabia; tivesse eu a sua brilhante memória. Não conheço ou conheci, sem qualquer favoritismo ou por simples acto de amor, algo semelhante, pois, ainda a conserva viva e activa apesar de ter nascido em 1922.

A minha mãe aceitava tudo o que o meu pai fazia e davam tudo sem nada em troca.

À noite - mesa cheia - naquela mais humilde casa - escutava histórias de fantasia e de encantar e muita poesia, declamado por meu pai, que todos com prazer escutavam.

Sabia de cor todos os livros por onde estudou e a poesia que neles conheceu e decorou. Depois, vinham todas noites rezar sobre a minha cabeça. (Tenho orações lindas com mais de 200 anos)

Fui crescendo, (não vos quero maçar), e, para abreviar, iniciei-me na poesia pela caneta de meu pai. Eu, ou melhor - meu pai - ganhava todos os prémios sobre poesia nas escolas por onde andei.

Nos anos de 60 do século passado escrevi, por minha mão, os meus primeiros poemas com a alma do meu pai. Já nesse tempo, a minha poesia a nascer, mergulhava na tristeza e cantava a vida com as cores do dia-a-dia. Cantava o que via ou o que não deveria e o que via era triste - mas isso são contas de outro rosário - pois, tudo era proibido.

Contaram-me, certo dia, que nas paredes do Aljube estava escrito com tinta vermelha de sangue a palavra LIBERDADE. A partir daí comecei a soletrar as letras do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Luís Cília do José Mário Branco e outros como o Sérgio Godinho e passei a militar na JOC (Juventude Operária Católica).

Aprendi que a poesia, escrita com a alma e com amor, tinha de ser disfarçada como se faz no contrabando.

Daí em diante era assim: poesia para lerem era escrita por metáfora. A outra, a Poesia era para esconder, mas, às vezes, arriscava.

Ao longo da minha vida escrevi mais de 11 livros de poesia que fui rasgando ou queimando ao sabor dos amores, desamores e erros meus.

Pouco resta! Duas pastas velhas que fui escondendo dos ímpetos do coração

Sobraram poucos, não os vou rasgar porque apesar da sua fraca qualidade têm a alma de meu pai e muitas imagens que pintei desses tempos.

Acabo com duas quadras que me recordo, nem estavam escritas, mas o poema está incompleto:

Sentado em minha cama

Entre lágrimas e pranto

Eu pergunto a Deus

Porquê chorar tanto

Se há tanta gente alegre

Por esse mundo além

Eu aqui penso e choro

Choro mais que ninguém!

1964

 

Vou terminar senão não paro de escrever as memórias…

Com estas palavras apenas vos quero dizer quanto amo a poesia, os poetas, e o meu mestre: O meu pai, o aluno brilhante, 3 vezes prémio escolar, do melhor aluno, na Pampilhosa da Serra.

Saudades

06-10-2005 21:45

 

sinto-me: Memórias
publicado por poetaromasi às 19:44
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Sexta-feira, 5 de Março de 2004

João Carvoeiro

(Póvoa - Padre Pedro)

João Carvoeiro

0 seu nome verdadeiro era João Tomás.

Quando eu conheci o senhor João Carvoeiro (alcunha porque era mais conhecido) já havia muitos anos que ele vivia na Póvoa.

Era casado com a minha prima Rosalina Antunes, filha da minha tia-avó Antónia Joana Antunes. Nessa altura já tinha quatro filhos, todos com idades muito diferentes da minha.

As filhas, mais velhas, já eram mulheres feitas. A Maria da Luz, creio, nasceu em 1907 e a Belmira em 1909, mas isto foi o que ouvi dizer. Quanto ao José Maria Antunes e ao Joaquim, esses tenho eu a certeza, o José nasceu em 1913 (o mesmo ano da minha irmã Nazaré) e o Joaquim em 1919 (o mesmo da minha irmã Laura).

Teve outro filho que era do meu ano, mas morreu, talvez, ainda antes de completar um ano de idade. A filha Maria nasceu em 1925, mas não me recordo bem dela. Recordo-me, sim, da Carminda que nasceu em 1927, a Lúcia em 1929 e o António em 1935, isto é, se não estou em erro, pois já passaram muitos anos.

Mas, segundo o que ouvi dizer, a minha prima Rosalina teve doze (12) filhos, sendo certo que o do meu ano morreu, ainda restam mais três irmãos que devem ter nascido entre o José Maria e o Joaquim. Destes 12 filhos sei que se criaram 8 crianças.

O Sr. João Tomás era natural do Vale Nogueira, freguesia e concelho da Lousã.

Sobre o seu aparecimento na Póvoa, só se sabe que veio para a Serra fazer carvão e que acabou por fixar residência na Póvoa, onde lhe deram a alcunha de carvoeiro.

Voltando ao carvão, era a forma que se tinha, naquele tempo, para se amealhar mais algum dinheiro e assim se poder criar os seus filhos sem fome, o que na verdade veio a acontecer.

Quanto a mim, penso que o Sr. João Carvoeiro deve ter sido dos homens mais trabalhadores que veio para a Póvoa. Ele trabalhava de dia e de noite, mas os seus filhos nunca passaram fome.

Para além desta importante virtude, posso afirmar que era um homem muito sério, em todas as suas contas. Conheci muito bem as suas boas qualidades, principalmente em Lisboa, pois, ele e a sua filha Maria da Luz e o filho Joaquim, viveram muito tempo no Pátio do Carrasco, junto ao Limoeiro e, por isso, sempre que vinha trabalhar para Lisboa era aí que ficava.

João Carvoeiro veio para a Póvoa e cedo ganhou o respeito de todos. Homem íntegro! Foi uma boa alma.

José Augusto Simões

publicado por poetaromasi às 20:44
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Geada, gelo, chuva e neve

(foto padre Pedro)

GEADA GELO CHUVA NEVE

Rogério Martins Simões

 

A enxada cava fundo

Na mão do homem do campo!

Fundo entra!

Chega fundo

Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

Na lareira, o pinho crepita,

A velha treme

E a criança grita

Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

O Inverno é ruim

E a bucha é tão rara.

Viva a salgadeira

Do toucinho cru!

Meu filho

Não te metas ao caminho

Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

Mãe minha, vou emigrar.

Que Deus a ajude

Que eu não posso!

E se Deus não quiser,

Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

Não há Inverno somente

Valha-nos os bafos da cabra!

Cabra minha já foste à lenha?

Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

Ardem as torgas na lareira

Senhor Ministro,

Que bela a casa a sua!?

Não há frio que lhe chegue,

Nem Geada, Gelo, Chuva e Neve.

 

Em casa de pobre,

Ramos de horta…

Ninhos de águia no alpendre…

Lavrador não fique curvado

À geada, gelo, chuva e neve.

1974

(Poema dedicado às gentes da Póvoa – Pampilhosa da Serra e aos Beirões)

sinto-me: poesia
publicado por poetaromasi às 20:22
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Todos os poemas escritos e publicados neste blog

da autoria de Rogério Martins Simões,

ou sob pseudónimo, ROMASI,

estão devidamente protegidos pelos direitos de autor.

(Registados no Ministério da Cultura

- Inspecção-Geral das Actividades Culturais I.G.A.C. –

Processo n.º 2079/09)






Memórias e poesia de um Beirão

nascido em Maio de 1922.

.Poesia e muita sabedoria de um poeta serrano com 91 anos



Obrigado pela visita ao blog do meu pai,

homem notável, impedido de estudar

por ter ficado órfão de pai e mãe aos 14 anos.

A sua memória é notável

sabe de tudo

é uma casa cheia!

Viva a poesia.

e se a vida não nos conhecer

porque nos esqueceu,

lembremos à vida que existimos e vivemos.

Obriga meu querido pai

por me ter ensinado

a escrever poesia

Seu filho, vosso filho

Rogério Martins Simões



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